domingo, 8 de junho de 2008

Adeus ao Joca, um feiticeiro da arte

Faleceu hoje, dia 8 de junho, Joaquim Carlos Alcobas, o Joca, um paulistano 'paranaense de coração', que se rendeu aos encantos e à simplicidade de Antonina há quase 30 anos. Ele comandava, ao lado da sua companheira inseparável Jurema, a Caçarola do Joca, um tradicional restaurante conhecido pela comida bem feita, pela simpatia do dono e também por ser reduto de artistas e políticos. Celebridades como Luís Mello, Olivier Anquier, Antonio Fagundes e Stênio Garcia já provaram de seus quitutes. Ele contava o segredo: 'É fazer a comida com amor e receber bem as pessoas.'


A caçarola do Joca
Olhar para os lados e ver fotos, quadros, pinturas, bonecas, estátuas de buda, de galos portugueses, peixes em cerâmicas, gaiolas etc... Tudo espalhado, pendurado pelas paredes ou em cima dos móveis na mais arrumada desarrumação. Percebesse que há uma certa ordem neste caos, uma harmonia nesta bagunça criada através dos tempos pelo Joca e sua família. E isto dá um prazer estético, gosto do lugar, me sinto bem, me é familiar. O Joca era um personagem quixotesco, alto, magro, com um cavanhaque ao estilo. Simpático por natureza, já está sendo citado por professores de administração como "aquele que sabe fazer o bom marketing de relacionamento". E, tal qual o Homem de La Mancha, era um resistente na sua eterna busca. Um catador de histórias. Via uma placa jogada num ferro velho, dava o seu devido valor sentimental e carrega para o seu restaurante. Junto trazia uma boa história. Você podeia não saber da história, pois ela podia ter-se perdido, mas está ali, latente no objeto catado. E que melhor lugar para se catar coisas do que no fundo de uma baía - lugar onde o mar encosta o cisco. Pois, o restaurante do Joca fica no fundo do fundo da baía de Antonina, para onde os objetos são empurrados pelas marés depois de descartados. É preciso saber muito para desarrumar as coisas com perfeição. Só a um mestre é permitido o dedo da desarrumação perfeita. Não tente você, se não souber como, desarrumar algo. Guimarães Rosa desarrumava o idioma. Picasso, antes de desarrumar a arte e fazer a sua revolução, foi um acadêmico comportado. O bom e velho Niemeyer continua ainda, com seus traços firmes, vigorosos e elegantes, a desarrumar a arquitetura. Grandes estilistas desarrumam a moda de tempos em tempos. É preciso primeiro dominar a técnica para depois conquistar a arte. É preciso saber fazer super bem para depois desarrumar. Voltando ao Joca, que distância entre o ambiente da sua Caçarola com os bares arrumadinhos e esteticamente ascéticos da moçada de hoje! Nada contra a nova arquitetura de interiores, com seus frisos de aço, néon, banquetas desconfortáveis, cenários e adereços comprados nas lojas especializadas. Seus cardápios artisticamente impecáveis na arte gráfica e falsos no sabor e na qualidade. Com seus visuais perfeitos e limpos, mas com serviços beirando o desleixo e o descaso. Investe-se muito na estética e pouco no treinamento de pessoal. Dizem que se perdem clientes na ordem de 68% por mal atendimento. Muitos restaurantes e donos de bares na moda pecam feio no detalhe mais simples, o sagrado ato de servir. Na caçarola do Joca você tem a estética da simplicidade. A escola de arquitetura alemã dos anos vinte e o zen nos ensinam que menos é mais. Lá, tem até um passarinho de verdade, acho que uma cambucica, que voa por entre as mesas com a maior desenvoltura. Se ele soubesse falar, como nos contos mágicos, estaria dizendo para os clientes: - Venham sempre aqui!


O Joca era um grande anfitrião, a comida da Jurema incomparável, a família atendia bem, e o Joca sabia contar histórias, estão todas nas paredes da casa.


É só o que Antonina, a cidade que abrigava o Joca e seu restaurante há mais de 30 anos, precisa fazer para atrair turistas, saber contar suas centenas de histórias. Elas estão todas guardadas nos seus casarões coloniais, nas suas esquinas e nos ciscos trazidos para o fundo da sua baía maravilhosa. Precisa honrar a memória deste grande homem.



Foi um grande incentivador do projeto O BONECO E A SOCIEDADE, enquanto o projeto ainda estava na sua fase piloto e foi sempre um grande amigo.


Muita luz prá você, Joca.

2 comentários:

Jamy disse...

Puxa que homenagem MARAVILHOSA!!! Vcs sempre foram especiais para o JOCA e continuarão sendo para a Família Caçarola do JOCA!

Um grande beijo a todos!

Jamylle (Filha do JOCA)

Cia dos Ventos disse...

Jamylle, como vc diz: SAUDADES SEM FIM!!! Amamos vcs.Muita Luz sempre!!!De coração!!!