terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Projeto Memória - Nova Geração de Bonequeiros Paranaenses

Encantadores de bonecos em ação

A arte milenar conquistou uma nova geração de artistas. A paixão e a influência familiar inspiram esse grupo, que solta toda a criatividade em cena no trabalho com os mais fantásticos personagens

  • Angela Antunes • @antunesangela • angelaa@gazetadopovo.com.br - 29/01/2011 às 00:30
Quem optou por passear pelo Parque São Lou­renço, em Curitiba, no último sábado (22) teve uma surpresa e tanto. Adultos, adolescentes e crianças trocaram as caminhadas, o carrinho de rolimã e o parquinho por uma reunião em torno de um pequeno palco, no qual conheceram personagens pra lá de criativos.
A grande atração era a peça Um Conto Pra Nossa História, da Cia. Arte e Manha, de Guarapuava, interior do Paraná, especializada em teatro de bonecos. Nos bastidores, uma garota chamou a atenção da equipe do GAZ+ – Daiana Felchak, de 20 anos, a mais jovem integrante da trupe.
Formado apenas por membros de uma mesma família, o grupo se dedica à divulgação desta arte milenar. E esse universo mágico faz parte da rotina de Daiana, que entrou na onda – como muitos outros jovens bonequeiros de sua geração – por conta da influência dentro de casa. “Eu nasci nesse meio, e desde pequena eu sonhava em fazer a minha primeira peça, que foi aos 6 anos”, conta.
Pouco a pouco, Daiana e outros jovens fazem história. E a veia familiar, de fato, conta muito. No caso de Manoel Kobachuk, 65 anos, por exemplo – referência nacional quando o assunto é teatro de bonecos –, todos os três filhos seguiram seus passos. “Eu fiz de tudo para que eles seguissem outro caminho”, brinca o pai de Pedro, 23 anos, Bernardo, 32, e Simone, 44.
Para Bernardo, não existia outro caminho – o cara se formou em Artes Cênicas na FAP, e trabalha ao lado do pai desde pequeno. Pedro até que tentou: estuda Design, e resistiu até o último momento. Depois de passar um tempo só atendendo telefone no ateliê de Manoel, ele acabou se envolvendo em todo o processo. “É uma coisa muito mágica. A marionete pode fazer qualquer coisa”, define ele, que se prepara para lançar seu primeiro espetáculo próprio ainda este ano.
Paixão
Na hora de falar dos pontos positivos do trabalho como bonequeiro, não faltam adjetivos. “Você consegue mostrar a realidade através do lúdico”, observa Daiana. Além, é claro, das mil possibilidades que esta técnica proporciona. “Os bonecos trazem mais possibilidades. Boneco voa, dá cambalhotas, faz qualquer coisa. Como ator você tem certas limitações”, comenta Ali Freyer, 22, outro artista bacana que encontramos nesta tarde teatral no Parque São Lourenço.
Ali, ao lado das amigas Helena Veiga, 17, e Juliane Souto, 20, integra a Cia. dos Ventos, que le­­­vou ao parque o espetáculo O Pequeno Solitário. “É uma magia diferente. Temos que ter todo o cuidado com a movimentação, são muitos outros detalhes”, define Helena – que também entrou nesta vibe por influência de sua mãe, que atua na área.
Juliane e Ali, por outro lado, ingressaram no meio por conta própria. Ambos já trabalhavam como atores, e foram fazer um curso com a mãe de Helena. Deu no que deu – eles se apaixonaram pela arte, e resolveram levar adiante. Tudo com muito esforço, é claro. “Quando você é um novato, não tem moral para conseguir dinheiro do governo para financiar um espetáculo seu”, reitera Ali.
Uma descoberta inesquecível
Layane da Silva Soares, de 17 anos, caiu de pára-quedas em uma oficina bacana sobre a arte do teatro de bonecos – que rolou na semana passada no Centro de Criatividade de Curitiba, no Parque São Lourenço. A adolescente está há apenas duas semanas em Curitiba – ela saiu de Londrina e veio à capital paranaense morar com a irmã e se dedicar aos estudos.
Enquanto a mana trabalha na Casa da Leitura, a jovem aproveitou o curso para conhecer melhor os segredos da manipulação e confecção de personagens. “Eu nunca tinha mexido com isso”, conta ela, que estava para lá de enturmada não só com os outros participantes (muitas crianças e adultos!), mas também com o material utilizado para a produção.
Jacarés, aviões, sapos... Tinha um pouco de tudo! Feito com papel machê, uma cola especial e papelão, o resultado final era incrível. “Depois de fazer os bonecos, inventamos uma história e encenamos. No fim, acabamos nos conhecendo ainda mais”, revela Layane. “Estou me divertindo demais. Não acho que é o que eu quero fazer para a vida, mas como um hobby, vou fazer sempre que tiver oportunidade”, reitera. Mauro Ikeda, 17, também aproveitou as tardes de folga nas férias para embarcar nesta aventura. “Arte eu sempre aprendi na teoria. Aqui a gente coloca a mão na massa”, completa.
Para quem quer se aventurar na área
Como já comentamos, o teatro de bonecos é uma arte milenar – que remonta à Pré-História. Bastan­­­te popular em países como a China, Índia e Indonésia, no Brasil ainda é – de certa forma – recente, especialmente quando se trata de grupos profissionais
Por mais que seja uma arte que, normalmente, é passada de pai para filho, qualquer pessoa pode se tornar um bonequeiro. O que falta, na verdade, são cursos profissionais.
Por isso, vale a pena ficar de olho nas oficinas e festivais, que acontecem com frequência em Curitiba. Outro ponto de partida é sair em busca de uma das 35 companhias que fazem parte da Associação Paranaense de Teatro de Bonecos (http://aprtb.blogspot.com/).
É claro que viver do teatro de bonecos – assim como da arte em geral – ainda é bem difícil. No entanto, não é impossível. Odílio Malheiros, bonequeiro há 35 anos e participante do grupo Mundaréu, garante que há sempre alguma oportunidade. “É complicado viver de arte e cultura em qualquer lugar, mas você vive. Mercado tem, e espaço também”, completa.

 Hugo Harada/Gazeta do Povo
Hugo Harada/Gazeta do Povo / Daiana Felchak, 20 anos, da Cia. Arte e Manha, de Guarapuava: paixão pelos bonecos
Daiana Felchak, 20 anos, da Cia. Arte e Manha, de Guarapuava: paixão pelos bonecos






Para quem quer conferir de perto esse universo, a programação das Férias Animadas 2011 é uma boa pedida. Inclusive, dois espetáculos são encenados hoje (29), às 11 horas, no Bosque Cambuí, e às 15 horas, no Centro de Criatividade de Curitiba, no Parque São Lourenço; e também amanhã (30), às 11 horas, no Teatro do Piá, e às 15 horas no Centro de Criatividade de Curitiba. Mais in­­formações: (http://feriasanimadas2011.blogspot.com/).


Toy Theatre Teatro de Papel




O grupo A Roda foi convidado em 2000 a participar de um festival em Nova Yorque chamado 'Festival do Pequeno Formato' onde parte dos espetáculos baseava-se na estética do Toy Theatre. Levamos o espetáculo 'O Combate', sobre o mito de São Jorge, que acompanhava a proposta do festival: pequenos espetáculos para uma platéia reduzida. Pude ver em exposição no foier exemplos de Toy Theatre ou Teatro de Papel, alguns encadernados ainda e outros já recortados e montados.



O Toy Theatre parece ter começado de forma bem artesanal e muitos artistas ainda os fabricam, mas, por motivos óbvios, os que mais se popularizaram foram os impressos. A burguesia do século XIII, e isso se prolongou até o começo do século passado, levava para casa estes brinquedos sofisticados que repetiam personagens e cenários das peças que assistiam.
Relativamente fáceis de montar, os mais antigos exigiam habilidade com tesoura mas talvez isso fosse exigir demais então começaram a aparecer os destacáveis, era só colar e pronto. O teatro já tinham, só faltava o resto...
Entre as mais conhecidas publicações de teatros de papel estão as do editor alemão Johann Ferdinand Schreiber, do editor inglês Pollock, do dinamarquês Alfred Jacobsen, dos franceses da Imagerie d’Epinal e dos espanhóis Paluzie e Seix & Barral, El Teatro de los Niños.



O Combate, Companhia A Roda de Teatro de Bonecos, 2000, Bahía
Aquí um texto interessante sobre o Teatro de papel
História do Teatro de Papel

Dorothea Reichelt*

“Seja qual for o local em que nos encontremos hoje em dia, estamos rodeados de papel. A utilização quotidiana do papel – seja em forma de jornal, de cartaz, papel para impressora, papel higiénico, bilhete de cinema, bilhete de teatro – apagou há muito tempo a magia que o papel outrora exerceu sobre as pessoas em virtude de todas as possibilidades de utilização que permitia.
Apesar de hoje ser utilizado como objecto quotidiano e descartável, e de ter assim perdido uma parte do seu significado, convinha, no entanto, não esquecer que o papel teve um lugar de primeira ordem no desenvolvimento da nossa civilização. Um pequeno elemento deste mosaico na história da cultura ao longo dos séculos é o Teatro de Papel. Em finais do séc. XIX podia ser encontrado em quase todas as famílias.

O Teatro de Papel

O Teatro de Papel é um teatro em miniatura. Toma como referência o verdadeiro teatro e tenta copiá-lo, não só naquilo que se refere à técnica cénica e ao ambiente mas também no que diz respeito ao repertório. Os princípios do Teatro de Papel remontam ao fim do séc. XVIII. No primeiro número da sua publicação semanal O Amigo das Crianças, em 1775, Christian Felix Weisse evoca “os aspectos agradáveis e divertidos de um pequeno teatro para crianças. Fazem-se representações com este pequeno brinquedo nos dias de festa, ou seja, em aniversários e ocasiões semelhantes”. Peças apropriadas para os pequenos teatros, a maior parte das vezes de conteúdo moralizador, surgiram nessa publicação. No fim do séc. XVIII o editor J.M. Weiss publicou nos seus folhetos, em Augsburg, algumas destas pequenas peças com personagens. As figurinhas eram feitas para recortar e brincar. São um elemento importante que faz a ligação entre as marionetas de mão ou de fio anteriores e o Teatro de Papel, mais recente. É evidente que o Teatro de Papel se distingue em muitos aspectos do teatro de bonecos, de personagens com volume capazes de movimento. Na maneira de actuar e na adaptação artística, o teatro de bonecos segue leis próprias, enquanto que o Teatro de Papel se mantém muito próximo do teatro real e constitui, portanto, um verdadeiro teatro em miniatura. O Teatro de Papel, no sentido restrito do termo, deve ser interpretado como um fruto típico da época romântica.
Teve na sua origem a grande paixão pelo teatro sentida pela alta burguesia no séc. XIX, e servia para reproduzir no seio das famílias as peças de teatro célebres e que tinham tido sucesso nos grandes palcos, e também para as tornar acessíveis e visíveis às crianças. É constituído por decorações como o fundo de cena e os bastidores laterais, uma cortina e um proscénio, e figurinhas em papel. Estes elementos eram apresentados sobre grandes folhetos impressos, colados sobre cartão, recortados e montados para com eles se fazer um palco sobre uma armadura de madeira. As figurinhas de papel, de 9 a 13 centímetros, reproduziam inicialmente os actores da época, quer nos figurinos quer na fisionomia. Eram fixadas em pequenos pedaços de madeira e deslocavam-se sobre o palco com a ajuda de um fio, quer por cima quer pelos lados.
O estilo do Teatro de Papel corresponde à disposição dos bastidores na época barroca ou então às cenas em trompe-l’oeil que se podem ver ainda em alguns velhos teatros como Drottningholm ou Böhmisch-Krumau. A instalação técnica da maquinaria de cena era muitas vezes reproduzida nos teatros de papel.
As condições técnicas prévias para que o Teatro de Papel se pudesse difundir
Se o Teatro de Papel se conseguiu assim desenvolver e difundir tão rapidamente no séc. XIX foi graças a duas invenções que contribuíram de forma decisiva para o desenvolvimento da cultura moderna: por um lado, a evolução técnica do fabrico do papel com o início da era industrial e, por outro lado, o facto de a produção em massa se ter tornado possível com a invenção da litografia, em substituição da gravura em cobre que apenas permitia um número restrito de impressões. [...]

Os precursores do Teatro de Papel

As estruturas que estão na origem do Teatro de Papel podem ser encontradas nos presépios de papel, nos desdobráveis e nas pequenas caixas panorâmicas de cartão, especialidade de Augsbourg. O ponto comum a todos eles é o facto de serem fabricados em papel, a partir de uma vontade individual, de se referirem a um tema encenado de uma forma próxima da cena real, num espaço tridimensional, e de poderem ser modificados.
O presépio de papel tem as suas raízes essencialmente na Áustria e na Baviera. No séc. XVIII e, por maioria de razão, no séc. XIX encontrava-se já no seio de numerosas famílias.
Rapidamente se encontraram vantagens económicas neste presépio: figurinhas planas recortadas em papel e mantidas em pé com a ajuda de uma pequena haste de madeira colocada por trás, por oposição às personagens com volume colocadas em primeiro plano. Na Boémia e na Morávia, os “pintores de bonecos” fabricavam as figurinhas para os presépios e outras cenas. Nesta mesma época, as pequenas caixas panorâmicas adquiriram também a sua celebridade, porque permitiam às pessoas satisfazer os seus novos hábitos de ver, o seu desejo de perspectiva. “A expansão destas pequenas caixas está confirmada desde o princípio do séc. XVIII. Inicialmente expostas como atracções nas feiras, foram em seguida fabricadas para uso particular, primeiro em Augsbourg e depois em Paris. Mais uma vez é o fabrico de Martin Engelbrecht (em Augsbourg, 1684-1756), que assume uma grande importância.
As suas caixas, com pequenas cenas graciosas, estão de tal forma próximas do teatro em miniatura que não podemos ignorar o seu carácter exemplar. Essas caixas em miniatura, amplamente difundidas e fabricadas a partir de gravuras coloridas, imitavam os bastidores dos palcos do teatro barroco, com seis profundidades de campo ou mais, e um fundo de cena. Os grupos de figurinhas fixas evocavam temas religiosos ou mitológicos, cenas de caça, festas de corte ou campestres, passeios de trenó e mesmo cenas de ópera ou de comédia. Destinavam-se ao divertimento de um público aristocrata”. (Sigrid Metken, Geschnittenes Papier: Eine Geschichte des Ausschneidens in Europa von 1500 bis heute, Hamburgo, 1978, pág. 253.)

O teatro e a sociedade

A época que se seguiu à Revolução Francesa teve como efeito, também no império alemão, reformas que, no entanto, apenas conseguiram penetrar em raros domínios, essencialmente culturais: o teatro e a literatura. A burguesia continuava largamente excluída do poder político. O desaparecimento progressivo da divisão política em pequenos espaços através da criação de um Estado nacional não conseguia concretizar-se, e as esperanças que os círculos burgueses e democráticos tinham depositado nas guerras de libertação foram aniquiladas pelas forças da Restauração depois do Congresso de Viena, em 1815.
A burguesia resignou-se e procurou outros ideais, na glorificação da vida privada: a família, a valorização do interior, o conforto e a cordialidade. O modo de vida do “Biedermeier” tornou-se a expressão típica do estado de espírito da época. A tendência para a retirada do “mundo exterior” foi reforçada devido às modificações económicas produzidas pelo início da industrialização. O domínio profissional e a vida familiar, dos quais a casa tinha sido até àquele momento a sede, ficaram separados e desenvolveram-se a partir desse momento em espaços diferentes: a vida privada em casa e a vida profissional na empresa. E daí decorreram modificações nas relações entre os membros da família. De comunidade de produção, a família transformou-se em comunidade de educação, de formação e de consumo. Era essencialmente a mulher quem dirigia a casa, enquanto o homem assumia, no exterior da casa, as suas funções profissionais. Atribui-se também um novo valor à infância e à juventude, que pela primeira vez foram reconhecidas como uma fase no desenvolvimento da vida, com as suas leis e as suas necessidades. Neste contexto, os domínios de aprendizagem, centrados essencialmente em torno da formação do “bel esprit”, assumiram uma importância capital e serviram como meio para a realização de cada um e para o reforço da consciência da classe burguesa.
Como o teatro constituía um dos raros domínios acessíveis à burguesia no fim do séc. XVIII – como testemunha a criação de teatros nacionais: Mannheim (1778), Berlim (1786), Munique (1811-1818), Dresden (1838-1841) – assumiu, portanto, uma grande importância como estrutura que permitia o acesso à cultura. O burguês sequioso de cultura encontrava no teatro uma compensação para as actividades políticas que lhe estavam vedadas. A descrição de Heinrich Heine caracteriza este público de teatro alemão com um grande rigor: “Na plateia alemã estão sentados cidadãos pacíficos, funcionários, que têm realmente a intenção de aí digerir tranquilamente a sua choucroute, e lá em cima, nos camarotes, encontramos as raparigas de olhos azuis da nobreza, belas almas loiras que trouxeram para o teatro o seu tricot ou outro trabalho qualquer, e que querem sonhar docemente sem no entanto deixar cair nenhuma malha. E todos os espectadores possuem esta virtude alemã que nos é dada à nascença ou, pelo menos, pela nossa educação, que é a paciência”. (Heinrich Heine, Obras Completas, vol. 3, Darmstadt, 1971, pág. 300.)
O entusiasmo pelo teatro nesta época está na origem de objectos de culto próprios. Os actores, que noutros tempos eram um povo sem domicílio, sem reconhecimento social e sem nenhum direito, foram adorados e celebrados como artistas, os seus figurinos suscitavam a admiração, as brochuras reproduziam-nos e difundiam-nos largamente no seio da população. As maquetas de palco dos intendentes dos teatros berlinenses, August Wilhelm Iffland e o Conde Karl Moritz von Brühl, serviram de modelo para estas brochuras de figurinos de teatro, que foram impressas em Nuremberga a partir de 1807 por Johann Raab, Friedrich Campe e Georg Nikolaus Renner. Já não faltava mais do que um pequeno salto para passar da contemplação pura e simples destes folhetos à construção de um Teatro de Papel para poder brincar em casa. Para as necessárias decorações de teatro (fundo de cena, bastidores) utilizaram-se inicialmente as maquetas de palco de Karl Friedrich Schinkel e Karl Wilhelm Gropius em Berlim.

O repertório

As peças que foram representadas nesses teatros de papel correspondiam em geral às encenações dos grandes palcos europeus. O teatro clássico assume aqui um lugar preponderante. De Johann Wolfgang von Goethe representaramse essencialmente Fausto e Götz von Berlichingen. As peças de Friedrich von Schiller foram também muito apreciadas, sobretudo Os Salteadores, Guilherme Tell ou Wallenstein. Mas a peça Kätchen von Heilbronn, de Kleist, um grande sucesso público, abriu igualmente um caminho no repertório do Teatro de Papel. A ópera também foi representada com vários títulos: as óperas de Wolfgang Amadeus Mozart, como A Flauta Mágica, As Bodas de Fígaro e Don Giovanni. Der Freischütz, de Carl Maria von Weber, foi sem dúvida a mais representada de todas as óperas para Teatro de Papel, porque todos os editores de ilustrações mandaram imprimir as figurinhas correspondentes. Outras óperas conheceram igualmente um grande sucesso: La Fille du régiment, de Gaetano Donizetti, Zar und Zimmermann, Der Waffenschmied e Undine, de Albert Lortzing, e Martha, de Friedrich von Flotow, por exemplo. Tannhäuser e O Holandês Voador, de Richard Wagner, tiveram igualmente os seus admiradores. O teatro de boulevard – a farsa, a peça popular e a opereta – está representado por pequenas peças de Johann Nestroy e Ferdinand Raimund, Lumpazivagabundus do primeiro, e Der Alpenkönig und der Menschenfeind do segundo. Im Weissen Rössl, peça ligeira de Hans Müller, ou as operetas Flotte Burschen, de Franz Von Suppé, e Der Zigeunerbaron, de Johann Strauss, pertenciam igualmente ao programa dos palcos em miniatura. De teatro em miniatura, o Teatro de Papel transformou-se, no fim do séc. XIX, em teatro para crianças, e a encenação de contos, lendas e peças de Natal surgiu no lugar do repertório de teatro habitual. É certo que, desde o princípio, se aceitaram as crianças como espectadores, mas no início da época do Teatro de Papel não havia peças para crianças propriamente ditas. A partir da segunda metade do século, reconheceram-se, paralelamente ao papel educativo do teatro, os aspectos criativos que ele podia também suscitar nas crianças, e foi só nessa altura que o Teatro de Papel se tornou um brinquedo dedicado às crianças. As representações tradicionais e os conteúdos culturais podiam continuar a ser transmitidos. Em 1878, o editor J.F. Schreiber de Esslingen lançou no mercado o primeiro verdadeiro teatro para crianças, com o qual elas poderiam criar as suas próprias representações. Com este objectivo, modificaram-se os textos originais das peças e reescreveram-se as mesmas numa versão reduzida, simplificada e purificada segundo a opinião da época, tanto do ponto de vista moral como linguístico. A lista dos títulos dos 69 libretos comercializados para o teatro de Schreiber atesta bem esta evolução.

Os editores do Teatro de Papel
Em Inglaterra

O primeiro editor que realmente começou a produzir folhetos para o Teatro de Papel foi o gráfico William West, em Londres, em 1881. Estes teatros eram efectivamente destinados a que se pudesse brincar com eles. Ao longo dos anos vieram juntar-se a ele os editores Skelt, Webb, Redington e Pollock, ou melhor, assumiram a sucessão uns dos outros. O sucesso surpreendente destes primeiros folhetos desencadeou outras edições, que se inspiraram em encenações populares dos palcos londrinos de Covent Garden e Drury Lane. Com este objectivo, alguns desenhadores faziam esboços de decorações e figurinos, por altura dos ensaios gerais, e no momento das representações eram postas à venda as maquetas dos palcos sobre os quais as pessoas podiam voltar a representar a peça.
A designação “Toy Theatre” (teatro-brinquedo) ou “Juvenile Drame” (teatro para crianças) mostra qual o tipo de público a quem estas brochuras eram destinadas, ou seja, a juventude. 500 peças no total, 150 só de William West, foram objecto de comercialização. Ao lado dos dramas de Shakespeare e das adaptações dos romances de Walter Scott, a história de salteadores de Isaac Pocock, criada em 1813 em Covent Garden, The Miller and His Men, atingiu a tiragem mais elevada, com nada menos do que 40 edições diferentes. Embora o “Toy Theatre” fosse destinado às crianças e aos jovens, nunca – ao contrário da Alemanha – se publicou uma peça especial para crianças. Robert Louis Stevenson descreve, no capítulo “A Penny Plain and Twopence Coloured” do livro Memories and Portraits, a impaciência tingida de alegria que sentia de cada vez que comprava novas brochuras. Um folheto a preto e branco custava um penny, a cores custava o dobro. Ao contrário da Alemanha, onde o Teatro de Papel funcionava essencialmente como objecto de distracção e de jogo para a camada mais elevada da burguesia, em Inglaterra visava antes de mais os jovens do meio operário, artesão e pequeno-burguês. Estes jovens não tinham dinheiro para ir ao teatro e apenas podiam adquirir pequenas brochuras baratas. Até 1860 foram constantemente acrescentadas ao repertório novas peças, após o que nenhuma outra foi produzida, apesar de se continuarem a reeditar as antigas. Ainda hoje se pode comprar em Inglaterra um “Original Pollock Toy Theatre”. [...]

Como se brincava com o Teatro de Papel em família?

Depois de se terem comprado os tão desejados folhetos de teatro, ou depois de as crianças os terem recebido de presente, era muitas vezes toda a família que se sentava à mesa para repartir o trabalho de recortar, colar e montar. Na montagem particularmente delicada do esqueleto do teatro com o proscénio, era sobretudo o pai quem ajudava. Não era raro que este trabalho fosse também confiado a um marceneiro. Os ensaios, numa fase posterior, exigiam a colaboração activa de todos os membros da família para manipular as personagens, ler o texto ou fazer o acompanhamento ao piano.
A maior parte das vezes era para as festas, sobretudo o Natal, que se fixava a data da estreia. Habitualmente, o teatro tinha o seu lugar na sala de estar. Os espectadores ficavam sentados, cheios de impaciência, em frente ao proscénio e o pessoal doméstico tinha também ocasionalmente autorização para assistir ao espectáculo. Regra geral, os rapazes e o pai assumiam a direcção do teatro, a gestão dos acessórios, a iluminação do palco e todas as manipulações técnicas, ou seja, tudo o que era necessário para a vida do teatro, enquanto que as raparigas tinham preferencialmente as casinhas de bonecas para se iniciarem no papel de futura esposa e mãe. A dramaturgia dos acontecimentos no palco era transmitida mais pelos efeitos técnicos, como raios e trovões, do que pelo movimento das figurinhas de papel que, de facto, não podiam fazer muito mais do que agitar-se ligeiramente ou balançar de um lado para o outro no momento em que falavam. Podemos dar-nos conta, ao ler as memórias de juventude de homens célebres desta época, até que ponto estes momentos de teatro marcaram a alma e o carácter das crianças de então. Ludwig Tieck, Wilhelm von Kügelgen, Felix Dahn ou Thomas Mann contam essas memórias, que muitas vezes deixaram marcas para a vida inteira.
Na novela Der Bajazzo, de Thomas Mann, o leitor fica a conhecer o fervor e o entusiasmo com que o escritor brincava com o seu teatro quando era pequeno. Escreveu ele: “Trata-se de um grande teatro de bonecos, muito bem equipado, com o qual eu me encerrava sozinho no meu quarto para montar os mais extraordinários dramas musicais. Puxava as cortinas e pousava um candeeiro ao lado do teatro, porque a iluminação artificial me parecia necessária para tornar a atmosfera mais intensa. Instalava-me mesmo em frente ao palco, era eu o chefe de orquestra, com a mão esquerda pousada sobre uma grande caixa redonda de cartão, que constituía o único instrumento de orquestra visível. Chegavam então os artistas que participavam na obra, tinha-os eu próprio desenhado com pena e tinta, tinhaos recortado e tinha-lhes colado uns pequenos paus de madeira para que se pudessem manter em pé. Eram senhores de casaco e chapéu alto, e senhoras de uma grande beleza. ‘Boa-noite, minhas senhoras e meus senhores, dizia-lhes, estão preparados? Eu já aqui estou porque ainda havia alguns problemas para resolver. Já vai sendo tempo de se dirigirem aos camarins e de se arranjarem’. Dirigíamo-nos então aos camarins, que se encontravam atrás do palco, saíamos de lá rapidamente, completamente transformados em figurinhas de teatro coloridas, e íamos informar-nos sobre a ocupação da sala, observando-a através do buraco recortado na cortina do palco. A sala, com efeito, estava convenientemente cheia; eu dava um pequeno toque de campainha para indicar o início da representação, após o que erguia a batuta e me deleitava por um instante com o profundo silêncio que este gesto suscitava. A um novo gesto da minha batuta, porém, começava a soar o surdo e misterioso rufar do tambor, que anunciava o início da abertura, e que eu executava com a mão esquerda sobre a caixa de cartão. Os trompetes, os clarinetes e as flautas, cuja tonalidade eu sabia muito bem imitar com a boca, soavam então, e a música continuava a tocar até ao momento em que, num crescendo poderoso, a cortina se erguia e o drama começava, na obscuridade de uma floresta profunda ou no esplendor de uma habitação. Esta história tinha-a eu imaginado em pensamento, mas tinha de ser improvisada nos detalhes, e os cantos apaixonados e doces que iam ganhando forma, acompanhados pelos trinados dos clarinetes e pelo ribombo dos tambores, eram versos estranhos e sonoros, cheios de grandes palavras audaciosas que rimavam por vezes mas que, no entanto, só raramente faziam sentido. Mas a ópera continuava, ao mesmo tempo que eu batia no tambor com a mão esquerda, cantava com a boca e, com a mão direita, não só movimentava as figurinhas que representavam mas dirigia também tudo o resto com um cuidado infinito. Isto fazia com que no fim de cada acto ressoassem uns aplausos entusiastas, pelo que era necessário abrir a cortina por várias vezes, e que ocasionalmente fosse necessário que o director da orquestra se voltasse no seu pódio e agradecesse à sala, ao mesmo tempo orgulhoso e lisonjeado. De facto, quando após uma representação tão extenuante eu arrumava o meu teatro com a cabeça a arder, sentia-me invadido por uma lassidão tão feliz como aquela que devia experimentar o verdadeiro artista depois de ter terminado com sucesso uma obra na qual teria posto o melhor de si próprio. Este jogo continuou a ser o meu passatempo favorito até chegar aos treze ou catorze anos”. (Thomas Mann, Récits, vol. 1, Frankfurt, 1975.)

O Teatro de Papel nos nossos dias: um anacronismo?

Hoje em dia o Teatro de Papel perdeu os seus atractivos e caiu no esquecimento enquanto objecto e meio de educação estética. Mas é ainda capaz de proporcionar prazer e divertimento àqueles que sabem avaliar a magia dos objectos propostos para a aprendizagem e aquisição de experiência graças à sua criatividade e imaginação. [...] Hoje em dia, o Teatro de Papel é ainda capaz de sensibilizar para o jogo da representação ou para o teatro em geral; a sua complexidade – que resulta de uma experimentação através do jogo, do facto de pôr simultaneamente em contacto forma, conteúdo, imagem, língua e música – contribui para isso. Porque este teatro pode modificar e tornar mais dinâmicos os nossos hábitos de percepção, o nosso comportamento de telespectador essencialmente sensível ao consumo, à sensação e à selecção, ou seja, incitar-nos a participar pelo pensamento e pelo jogo. É claro que o Teatro de Papel, com a sua ingenuidade tocante, não se propõe assumir o lugar da televisão ou do computador, mas constitui um enriquecimento que estimula a imaginação e a criatividade. Continua palpável, previsível e próximo, e faz participar no jogo, de uma forma activa, tanto o espectador como o actor.”
* “Les Brigands dans la Salle à Manger: Histoire du Théâtre de
Papier”. In http://www.marktbreit.de/museum/les_brigands.htm
Trad. Lina Dupuis. Marktbreit: Museum Malerwinkelhaus, cop. 1999.

Tradução Para o português em:
Teatro de Papel – Convidado de Pedra, PDF

Fórum Papier Theater
Das Papier Theater


Entrevista de Katiane Negrão do Grupo Tato sobre o espetáculo "Tropeço"


"Quando pensamos em drama ou comicidade, não soubemos escolher. Queríamos algo profundo, poético, mas que também possibilitasse o riso. Quando os tecidos sobre as mãos nos inpiraram duas velhas começamos a improvisar pequenas cenas que velhas poderiam fazer, e que ainda pudessem ser feitas com uma mão sem que a pltéia sentisse falta da outra mão. Estas pequenas ações foram nos dando material para definir suas personalidades até que escolhemos que tipo de relações elas teriam, e escolhemos ser uma casal homossexual. E percebemos que estávamos tratando de um assunto, ou melhor, dois assuntos em um, muito delicado a homossexualidade na velhice. Não queríamos cair no ridículo, na tiração de sarro, quisemos realmente tratar o assunto com delicadeza e bom humor, e vimos que o mais importante que estávamos falando era do amor entre duas pessoas e não importava de que sexo elas eram."

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Festival Santista de Teatro recebe inscrições

Companhias teatrais de todo o Brasil (profissionais ou amadoras) êm até o próximo domingo (27/2) para se inscrever no 53º Festival Santista de Teatro, o FESTA, , nas categorias adulto, infantil e de rua. Neste ano, o festival acontecerá de 15 a 23 de abril, em diversos espaços culturais de Santos, litoral sul de São Paulo.

O objetivo é que o festival continue sendo um espaço para a integração das artes cênicas no país. Considerado o festival de teatro mais antigo em atividade, o FESTA foi criado em 1958 por Patrícia Galvão, a Pagu. Nele surgiram talentos como os irmãos Cláudio e Sérgio Mamberti, Greghi Filho, Jandira Martins, Tanah Corrêa, Ney Latorraca, Bete Mendes, Carlos Soffredini, entre outros.
Uma novidade nessa edição é que as companhias podem estipular o valor de seu cachê para participar do festival. O tema – “Respeitável Público” – foi escolhido para enfatizar a interação popular com as produções teatrais que serão selecionadas.  Os ingressos serão vendidos a preços populares nas categorias adulto e infantil. Já a categoria Teatro de Rua será aberta a todos, com apresentações também em outros municípios da Baixada Santista. Mostras paralelas, exposições, mesas-redondas e oficinas gratuitas também farão parte da programação.
As inscrições devem ser feitas pelo site www.festivalsantista.com.br.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Entrevista de Henrique Sitchin por Jorge Miyashiro

O SENHOR DOS SONHOS NO PLAYGROUND DO IRRACIONAL


Nesse fevereiro tórrido e um pouco turbulento, encontrei-me com HENRIQUE SITCHIN na Biblioteca Monteiro Lobato para gravar essa entrevista. Sitchin relatou em 40 minutos suas francas impressões sobre o ambiente do teatro de bonecos, o impacto de seus espetáculos sobre a mentalidade do público. Infelizmente, editado, o vídeo ficou reduzido a esses essenciais 7 minutos para poder ser postado. Mas a idéia fundamental permaneceu, a inquietude desse produtor, artista, sonhador, viajante, poeta da imagem e generoso apoiador da arte bonequeira. Conheçam um pouco mais de O SENHOR DOS SONHOS NO PLAYGROUND DO IRRACIONAL.